.: Diagnóstico
da Fertilidade e Manejo dos Solos sob Enfoque Sistêmico
da Produção Rural
Trabalho apresentado no XVIII Seminário
de Extensão Universitária da Região Sul
(SEURS) realizado em novembro de 2000 em Santa Maria (RS),
e publicado na Revista Expressa Extensão (Universidade
Federal de Pelotas), v. 5, n.2, p. 69-80, dezembro 2000
Luciano de Almeida (Prof. M.Sc. - Departamento
de Economia Rural e Extensão da UFPR)
Marcelo Ricardo de Lima (Prof. M.Sc. - Departamento
de Solos e Engenharia Rural da UFPR)
Beatriz Monte Serrat Prevedello (Profa. Dra.
- Departamento de Solos e Engenharia Rural da UFPR)
RESUMO: A capacitação
de agricultores envolve processos de produção
e troca de conhecimentos, situações de aprendizagem
onde são importantes os conhecimentos que técnicos
e agricultores tem da situação vivida por estes
últimos. Essa capacitação pressupõe
que se partilhe o reconhecimento de problemas e a busca de
alternativas. O diagnóstico constitui-se numa ferramenta
eficiente para atingir estes objetivos, especialmente se for
desenvolvido sob um enfoque sistêmico da produção
rural e com a participação dos agricultores.
À partir destes pressupostos, o Projeto de Extensão
Universitária Solo Planta, alocado no Departamento
de Solos da Universidade Federal do Paraná, realizou
três cursos de extensão universitária
envolvendo profissionais da área agrária e agricultores.
Os resultados dos cursos permitiram não somente constatar
a eficiência do diagnóstico sob enfoque sistêmico
na apreensão da dinâmica das unidades de produção
estudadas, como também foi efetivo na capacitação
dos profissionais, agricultores e estudantes envolvidos.
PALAVRAS CHAVE: diagnóstico,
enfoque sistêmico, fertilidade do solo
Soil management and soil fertility
diagnosis: a systemic approach for the rural production
ABSTRACT: Many actions are
important for the qualification of an agricultural worker.
These actions comprehend the knowledge of the productive process,
the experience exchange between technicians and these agricultural
workers and to learn a variety of situations of the rural
life. This process aims the recognition of local problems
and the search of alternatives for their solutions. The soil
fertility diagnosis may be an efficient auxiliary tool to
reach this objective. This is especially true if it is developed
under a systemic view and with the evolvement of the agricultural
workers. Based on this propose, the Soil Plant Project members,
from the Soil Department of UFPR, offered three extension
courses for professionals of related areas and agricultural
workers. The results obtained with these courses allowed to
verify the adequacy of the diagnosis methodology, to comprehend
the studied place dynamics, as well as to verify the efficiency
of the qualification of everyone involved.
KEY WORDS: diagnosis; systemic
approach; soil fertility
INTRODUÇÃO
O sucesso das estratégias de geração
e socialização de conhecimentos e técnicas
agrícolas está condicionado ao reconhecimento
de que existem diferentes tipos de agricultores com problemas,
potencialidades e necessidades específicas (5). Por
conseqüência, isto significa reconhecer que não
existem padrões tecnológicos universais e adequados
a diversidade de situações e demandas dos produtores
rurais.
Os efeitos da mudança tecnológica
na capacidade de reprodução dos agricultores
precisam, por outro lado, ser relativizados. A tecnologia
não é o único fator que contribui para
o desenvolvimento das unidades produtivas e dos sistemas agrários.
Ao contrário, diversas variáveis internas e
externas às unidades produtivas condicionam a sua sustentabilidade
econômica, social e ambiental (12).
Nesta orientação, as estratégias
de assessoramento e proposição de alternativas
técnicas e gerenciais aos agricultores devem ser elaboradas
e desenvolvidas em função dos problemas concretos,
do projeto do agricultor e das reais condições
para sua implementação. Por isso, as orientações
aos agricultores devem ser feitas a partir das conclusões
de um diagnóstico e ter como pressuposto os elementos
acima mencionados (7).
Estas premissas básicas vem sendo
adotadas no planejamento e execução do Projeto
de Extensão Universitária Solo Planta (8), desenvolvido
no Departamento de Solos da Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Dentre as atividades deste projeto, está a
realização de cursos de extensão universitária
sobre diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos.
Este trabalho tem por objetivo apresentar a ferramenta do
diagnóstico sob enfoque sistêmico, utilizado
nestes cursos, bem como os resultados alcançados em
termos de prática extensionista.
REFERENCIAL TEÓRICO
O trabalho de orientação para
coleta de amostras e, sobretudo, de capacitação
a partir da interpretação das análises
de solos, exige que se considere alguns fatores que influenciam
na possibilidade dos produtores rurais adotarem ou não
as alternativas e inovações sugeridas.
A orientação difusionista da
assistência técnica que uniformiza os produtores
rurais para os quais se repassam tecnologias padrões
e pré-definidas já se mostrou muito limitada
e excludente, deixando sem opções tecnológicas
e assessoramento adequado um grande conjunto de produtores
rurais, sobretudo agricultores familiares cujos sistemas de
produção são complexos (3). É
preciso reconhecer as diversidades dos ecossistemas e dos
modos de gestão, e considerar a constituição
histórica de agricultores e agriculturas diferenciados
econômica, social e culturalmente (12).
Nesta perspectiva, o processo de assessoramento,
de geração e socialização de conhecimentos
e técnicas pressupõe não só o
reconhecimento da existência de diferentes tipos de
agricultores, mas a realização de procedimentos
que caracterizem as diferenças fundamentais que condicionam
a adoção de inovações. Como afirma
Silveira (12), são estas condições concretas
em nível de unidade produtiva, que determinarão
as opções tecnológicas. Estas condições
envolvem fatores não só econômicos, mas
aspectos ecológicos, culturais e político-institucionais
que definem distintas estratégias de decisão
e gestão nas unidades produtivas (12).
É preciso, assim, compreender a racionalidade
da gestão da unidade produtiva, identificando suas
características sócio-econômicas, sua
história e estado atual, sua necessidades e projetos.
Como afirma Silveira (12), essa racionalidade ou lógica
de gestão e decisão "(...) é sempre
uma opção entre alternativas conhecidas pelo
gestor, segundo critérios que são condicionados
pela percepção do agente em relação
a sua situação".
Captar esta lógica de gestão
é uma das principais funções do diagnóstico.
Nesta perspectiva, o diagnóstico pode ser um instrumento
que possibilita a identificação de restrições
e oportunidades ao desenvolvimento dos sistemas de produção
(10). Algumas questões centrais devem ser respondidas
no diagnóstico da fertilidade e manejo do solo, dentre
as quais destacam-se (1):
1) O produtor reconhece que tem problemas
com o seu solo? E ainda: até que ponto este agricultor
acredita que problemas com o seu solo podem estar causando
perdas de produção, produtividade e renda? Estas
perguntas são fundamentais, pois é preciso que
o agricultor esteja certo da necessidade da análise
de solo e planta, e das recomendações daí
derivadas. Essa necessidade deve ser evidenciada e reforçada
se preciso, pois, do contrário, tanto a análise
quanto as sugestões técnicas podem não
ser consideradas importantes e úteis pelo o agricultor.
Se isso acontecer a possibilidade de adoção
das recomendações é pequena;
2) Qual a prioridade que este produtor dá
para os problemas de solo e para as recomendações
que visem a correção ou manutenção
da fertilidade do solo? Se outros problemas (técnicos
ou não) forem considerados mais importantes pelo agricultor
diante do esforço e custo que a análise e recomendações
vão lhe exigir, seu interesse e aceitação
diante das sugestões tende a ser reduzida.
Um método básico para responder
a estas duas questões e identificar a importância
e a prioridade para problemas e recomendações
relacionadas com o solo é envolver ao máximo
o produtor no trabalho de caracterização da
propriedade. A participação do produtor tem
por objetivo o engajamento deste na análise de sua
realidade e na busca de alternativas apropriadas. Além
disto, a participação deve proporcionar que
o produtor não seja um mero informante, mas um co-autor
do diagnóstico, reconhecendo-se assim o conhecimento
local e transformando o diagnóstico num instrumento
de capacitação (4).
O diagnóstico participativo deve assim,
permitir que o produtor analise e discuta sobre o modo como
o seu solo é manejado e sobre os problemas daí
decorrentes. Isto vai permitir que ele perceba a necessidade
(ou não) das análises e das futuras recomendações,
o que tende a favorecer a adoção destas. É
evidente que quanto mais discutido com o produtor for o diagnóstico
e as recomendações, mais apropriadas ao sistema
de produção serão as sugestões,
e maior será o grau de adoção.
O reconhecimento da realidade, por outro
lado, não deve, e nem pode, se constituir num levantamento
exaustivo e demorado de "toda" a situação
vivida pelos agricultores. Esta pretensão é
equivocada ao pressupor que seja possível conhecer
a totalidade dos fenômenos que condicionam a lógica
de gestão e as opções relacionadas com
o manejo dos solos, e que, só a partir desse conhecimento,
seja possível produzir e trocar novos conhecimentos.
Por sua vez, o planejamento formal, com seus diagnósticos
estanques e detalhados, tem se revelado limitado para situações
onde se deseja priorizar a produção de informações
num tempo curto, através de dinâmicas participativas.
Neste projeto, admite-se, como Chambers (4),
que uma grande quantidade de informações obtidas
não garante a utilidade destas, nem a qualidade do
resultado do diagnóstico. Ao contrário, primou-se
aqui pela informalidade e flexibilidade na realização
do diagnóstico, por considerar tais princípios
coerentes com a concepção de capacitação
e com as estruturas e estratégias de formação
disponíveis pelo projeto.
O enfoque sistêmico é aquele
mais apropriado para captar e compreender a racionalidade
e as lógicas de gestão de uma unidade de produção
através da análise do seu funcionamento (7).
Considerando-se que o produtor acredite que
a análise de solos é importante diante de problemas
prioritários já reconhecidos, deve-se proceder
o conhecimento do sistema de produção naquilo
que influencia a fertilidade, o manejo do solo e a possibilidade
de adoção das recomendações.
Este levantamento de informações
deve partir de uma abordagem ampla e sistêmica do funcionamento
da propriedade. É preciso que os problemas e alternativas
relacionados a fertilidade do solo sejam identificados e analisados
em suas interações e interferências com
outras áreas e atividades do estabelecimento. O princípio
básico é que as decisões do produtor
quanto ao manejo do solo estão condicionadas à
lógica de gestão de toda a propriedade. Portanto,
é preciso entender como funciona o sistema produção
e descobrir as causas que orientam as escolhas e decisões
do produtor.
Na abordagem sistêmica, os estabelecimentos
agrícolas são vistos como um todo organizado,
um sistema aberto e complexo. O sistema de produção,
segundo Dufumier (5), pode ser entendido como um arranjo de
atividades agrícolas e não-agrícolas,
gerenciadas em função do ambiente sócio-econômico
e agroecológico e de acordo com os objetivos, preferências
e recursos da família.
Uma das propriedades mais importantes dos
sistemas é que cada um deles ocupa um nível
determinado em uma organização hierárquica
e, portanto, pode constituir parte de um sistema maior, e
por sua vez subordinar subsistemas hierarquicamente inferiores.
Esta hierarquização de um sistema maior em subsistemas
é imprescindível para que a investigação
não caia na generalização ou no reducionismo
(11). Esta hierarquia inclui o nível regional (sistema
agrário), o nível intermediário da unidade
de produção (sistema de produção),
e o nível dos sistemas de cultivo, de produção
animal, de extrativismo, e de processamento. O sistema de
produção, assim, pode ser dividido em subsistemas:
-
Sistemas de cultivo, definidos ao nível
das parcelas ou de grupos de parcelas de terras tratadas
de maneira homogênea, com os mesmos itinerários
técnicos e sucessões culturais. Os sistemas
de cultivo abrangem atividades de lavoura, florestas e
pastagens;
-
Sistemas de criação,
definidos ao nível dos grupos de animais;
-
Sistemas extrativistas, definidos ao
nível parcelas de áreas onde a retirada
de recursos naturais ou de produtos predomina;
-
Sistemas de processamento dos produtos
agropecuários no estabelecimento.
Analisar um sistema de produção
na escala dos estabelecimentos rurais não se resume
somente em estudar seus elementos constitutivos, mas consiste
sobretudo em examinar com cuidado as interações
e as interferências que se estabelecem entre eles (5):
-
Relações de concorrência
entre as espécies vegetais e animais pelos recursos
naturais disponíveis (água, luz, minerais,
matérias orgânicas, etc.);
-
Relações de sinergia
ou de complementaridade na utilização dos
recursos;
-
Distribuição e repartição
(no tempo e no espaço) da força de trabalho
e dos meios de produção entre diferentes
sub-sistemas de cultura e de criação: itinerários
técnicos, sucessões e rotações
de cultura, distribuição da área
disponível entre as culturas, calendários
forrageiros, deslocamentos de rebanhos.
METODOLOGIA
A metodologia apresentada nos cursos de extensão
universitária, promovidos pelo Projeto de Extensão
Universitária Solo Planta (8), enfatizou a importância
da realização de um diagnóstico das unidades
produtivas, o qual antecede e orienta a busca de alternativas
tecnológicas. Especificamente, no diagnóstico
da fertilidade e manejo dos solos, a caracterização
do sistema de produção foi uma importante ferramenta
facilitadora do trabalho de assessoramento ao produtor rural.
O diagnóstico foi realizado através
de diferentes técnicas, que foram aplicadas pelos participantes
dos cursos: elaboração de croquis (mapas), elaboração
de toposseqüências, realização de
uma entrevista semi-estruturada, e coleta de amostras de solo.
Destaque-se que, antes da realização do diagnóstico,
nos cursos de extensão foram realizadas reuniões
com as organizações e agricultores envolvidos,
e visitas preparatórias às unidades de produção,
com o intuito de planejar as atividades, iniciar o processo
de conhecimento da realidade, e motivar dos agricultores.
Na elaboração do croqui procurou-se,
junto com o produtor rural, localizar e desenhar os limites,
os diferentes usos, sentido do declive, estradas, benfeitorias,
etc. Esta atividade foi fundamental para que agricultor e
técnicos iniciassem um processo de aproximação
no uso da linguagem e na visualização do espaço
sobre o qual trabalhariam. Esta atividade também permitiu
que o agricultor reconstruísse e revelasse ao grupo
o modo como compreendia espacialmente sua unidade de produção.
O croqui foi assim, o primeiro resultado coletivo do diagnóstico
e serviu como referência visual para as discussões
que se seguiram sobre o uso e manejo desse espaço.
O objetivo das toposseqüências
foi ilustrar características agroecológicas
e de ocupação do solo segundo a posição
na paisagem (10). Para fazer a toposseqüência procurou-se
caminhar fazendo percursos através de áreas
com diferenças de declividade, uso, solo, etc.
A entrevista semi-estruturada constituiu-se
na atividade balisadora do diagnóstico. Ela se iniciou
no momento da chegada a propriedade, desenvolveu-se em momentos
diversos, paralelamente a outros levantamentos. Desta forma,
não houve uma preocupação com uma seqüência
muito rígida e as informações eram obtidas
durante um diálogo mais flexível. Durante a
elaboração dos croquis, da toposseqüência
e de discussões paralelas, diversas informações
importantes foram obtidas. Coube aos participantes do curso
ficarem permanentemente atentos para registrar as informações
pertinentes e questionar quando necessário. A entrevista
envolveu questões sobre: identificação
e caracterização da propriedade; calendário
das atividades rurais; descrição dos sistemas
de cultivo; problematização da área;
manejo do solo e culturas; informações sobre
adubação, calagem e sintomas visuais nas plantas;
dados gerais do solo; gestão do estabelecimento e projetos
futuros.
Após a coleta das informações
e amostras de solo, houve a análise laboratorial (química
e física), a interpretação dos resultados,
discussões entre docentes, técnicos e alunos
sobre alternativas, e a elaboração de um relatório
parcial onde constavam as sugestões ao produtor rural.
Numa etapa seguinte realizou-se uma reunião
com os agricultores envolvidos na qual foram amplamente debatidas
as sugestões elaboradas pelo grupo. Este momento não
se constituiu num simples repasse de técnicas acabadas.
Ao contrário, foi caracterizado com um momento de troca
e produção de conhecimento, onde as sugestões
eram reavaliadas sob a ótica do agricultor. Neste processo,
novas informações foram incorporadas ao diagnóstico,
analisaram-se as incompatibilidades entre as alternativas
tecnológicas elaboradas e as características
da unidade de produção, surgiram novos enfoques
dos anseios do agricultor, e foram colocados novos desafios,
diante de problemas não resolvidos. Após uma
análise mais demorada do relatório pelos agricultores
procederam-se novos contatos entre os participantes do projeto
e os agricultores, de modo a dar continuidade ao diagnóstico
e a busca de alternativas.
Este breve relato de atividades procura demonstrar
que o projeto concebe a capacitação dos agricultores
como um processo que não se acaba com curtas intervenções
ou visitas. Professores, bolsistas do projeto, e participantes
dos cursos de extensão se sucedem no assessoramento
aos agricultores, procurando criar um vínculo mais
duradouro entre produtores rurais, suas organizações
e a universidade.
A parte final do trabalho envolveu a avaliação
dos agricultores em relação ao produto final
obtido, e a avaliação dos participantes do curso
em relação ao mesmo. O detalhamento da metodologia
adotada pode ser encontrado em Lima et al. (9).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram realizados três cursos de "Diagnóstico
da Fertilidade e Manejo dos Solos", os quais reuniram
profissionais e estudantes de Agronomia e Engenharia Florestal.
No primeiro curso de extensão (abril de 1999) foram
estudadas duas propriedades rurais que apresentavam sistemas
de produção e realidades distintas, baseadas
na produção convencional de olerícolas.
No segundo curso (outubro de 1999) foi estudada uma unidade
de produção rural cujo sistema produtivo possuía
integração entre a produção vegetal
(grãos e olerícolas) e animal (suínos),
com base em princípios orgânicos. A propriedade
analisada no terceiro curso (setembro de 2000) caracterizava-se
como um sistema de produção bastante diversificado
e complexo.
Evidentemente que, pelo modo como foram desenvolvidas
as atividades, os participantes do curso e os agricultores
foram os maiores beneficiários deste trabalho. Contudo,
é preciso ressaltar a oportunidade de aprendizagem
que essas atividades proporcionam aos docentes e pesquisadores.
Dois aspectos se destacam nessa aprendizagem. O primeiro diz
respeito a experiência metodológica de produção
e socialização de conhecimentos no âmbito
de um processo que busca a interdisciplinariedade. A existência
de um mesmo fenômeno (uma unidade de produção)
analisado de modo coletivo em momentos de reconhecimento,
análise e diálogo, permitiu um exercício
e um aprendizado metodológico. A compreensão
de um fenômeno complexo, tal como uma unidade de produção,
exige e se revela melhor quando os indivíduos vão
além de seus campos disciplinares, quando se permitem,
na troca e no respeito, considerar os conhecimentos que parecem
estar fora de seu universo disciplinar.
O segundo aspecto refere-se ao exercício
da produção e troca de conhecimentos com agricultores,
onde os resultados tem implicação concreta e,
por vezes, imediata. A capacitação de agricultores
e o estabelecimento de compromissos diante de expectativas
não acadêmicas, certamente implica em novas posturas
e em capacidades de trocar e educar, por vezes, distintas
daquelas predominantes nas práticas cotidianas das
aulas.
Por fim, mas não conclusivo, há
o aprendizado de saberes que surgem dos agricultores e dos
participantes dos cursos, cujas histórias e experiências,
revelam significados inovadores. Se aprenderem, como docentes,
a aprender na troca com aqueles que estão fora da academia,
é possível que sejam melhores professores.
A unidade de produção que serviu
de base empírica para o terceiro curso foi escolhida
em colaboração com a Associação
d’Agricultura Orgânica do Paraná (AOPA)
e fazia parte de um grupo de agricultores que também
foram envolvidos no curso. Este procedimento caracterizou
uma ampliação do projeto e dos cursos de extensão
para agricultores organizados, onde as estruturas e relações
coletivas tivessem importância nos modos como estes
produtores rurais procuram resolver seus problemas.
A parceria com uma organização
e a inclusão de momentos de discussão e capacitação
grupal teve por objetivo expandir a capacitação
a um grupo maior de agricultores. Pretendeu-se, também,
que os serviços e a capacitação oferecidos
pelo projeto e pelos cursos fossem coerentes com demandas
identificadas a partir dos próprios agricultores. Por
sua vez, o envolvimento dos produtores rurais, em práticas
de grupo e organizativas revelaram estratégias de reprodução
cujo entendimento, pelo diagnóstico, foram importantes
na identificação de potencialidades e alternativas.
Destaca-se ainda que, segundo Lima et al.
(7), "a organização do trabalho por grupos
de vizinhança, além de atingir um número
maior de agricultores e poupar recursos, possibilita que os
agricultores façam comparações entre
as unidades de produção, percebam as diferenças
e semelhanças e relacionem as diferentes variáveis
que interferem no resultado da produção".
Conforme anteriormente esclarecido na metodologia,
a característica fundamental desenvolvida nestes cursos
foi um trabalho em equipe, baseado em estudos de caso, que
buscou uma prática interdisciplinar, e que envolveu
professores, produtores rurais, participantes do curso, bolsistas
e estagiários do projeto. Coerente com estas características,
utilizou-se o enfoque sistêmico em um estudo integrado
de fertilidade e manejo do solo. Deve-se observar que "a
unidade de produção agropecuária é
um sistema aberto que mantém relações
com o meio ambiente físico, socio-econômico e
cultural" (7). Portanto, a incorporação
da abordagem sistêmica aos cursos foi importante pois
o profissional de ciências agrárias deve possuir
uma visão de todo o sistema, e atuar de modo coerente
com a dinâmica dessa totalidade, e não se orientar
apenas para resolução de partes, supostamente
isoladas.
Os cursos geraram vários resultados
como: produção de conhecimento sistematizado
em um manual (9); produção de diagnósticos
do sistema de produção com enfoque no manejo
e fertilidade do solo, e aconselhamento técnico aos
produtores que gerenciam as propriedades rurais estudadas
nos cursos (13;14); treinamento de 15 bolsistas e estagiários
envolvidos no projeto de extensão; atualização
de 70 profissionais e estudantes que atuam ou virão
a atuar na extensão rural; participação
de 08 docentes do Setor de Ciências Agrárias
da UFPR que puderam exercitar a atividade extensionista em
um processo que buscava a interdisciplinaridade.
Através dos cursos, os participantes,
bolsistas e estagiários, foram sensibilizados da necessidade
do diagnóstico sob enfoque sistêmico para poderem
apreender a realidade do produtor e da produção
rural, e poderem exercer um assessoramento compatível.
A realização do diagnóstico permitiu
que os participantes do curso elaborassem recomendações
técnicas mais adequadas do que aquelas que seriam obtidas
pela mera interpretação das análises
laboratoriais do solo, pois consideraram limitações
e potencialidades de cada unidade de produção
agropecuária.
Os participantes dos cursos puderam observar
que o "trabalho do profissional como educador não
se esgota e não deve se esgotar no domínio da
técnica, pois que esta não existe sem os homens
e estes não existem fora da história, fora da
realidade que devem transformar" (6).
O diagnóstico foi uma importante ferramenta,
pois o extensionista deve ter espírito de pesquisador,
a fim de conhecer a fundo o meio em que irá atuar,
evitando uma ação de mero depósito de
conhecimento dos técnicos junto à população
rural (2).
As avaliações (escritas e anônimas),
realizadas pelos participantes do primeiro curso, mostraram
que os mesmos valorizaram a instrumentação fornecida.
Esta avaliação mostrou graus elevados de satisfação
plena dos participantes segundo os critérios adotados:
carga horária adequada (58%), materiais didáticos
adequados (88%), metodologia adequada (88%), trabalho em grupo
(76%), ministrantes adequados (94%), tópicos do curso
adequados (58%), contribuição para formação
profissional (88%), satisfação das expectativas
em relação ao curso (70%). As demais respostas
referem-se ao atendimento parcial ou não atendimento
da expectativas dos participantes. No segundo e terceiro cursos
houve preocupação em sanar os aspectos relacionados
como limitantes no primeiro curso.
A avaliação realizada no terceiro
curso mostrou que aumentou a satisfação plena
dos itens carga horária (65%), materiais didáticos
(100%), tópicos adequados (61%), contribuição
para a formação profissional (91%). No entanto,
ainda há a necessidade de melhor se adequar os aspectos
de metodologia de estudos de casos, atividade em grupo, ministrantes,
e atendimento das expectativas do curso, pois ficaram um pouco
abaixo da avaliação anterior, sendo que a satisfação
ficou revelada em 82%, 70%, 83%, e 68%, respectivamente.
CONCLUSÕES
A ferramenta de diagnóstico da fertilidade
e manejo do solo sob enfoque sistêmico permitiu uma
melhor compreensão da realidade rural, possibilitando
a maior eficiência do processo de capacitação
técnica, aspecto favorável tanto aos produtores
rurais quanto aos profissionais que participaram dos cursos
de extensão universitária.
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