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.: Diagnóstico da Fertilidade e Manejo dos Solos sob Enfoque Sistêmico da Produção Rural

Trabalho apresentado no XVIII Seminário de Extensão Universitária da Região Sul (SEURS) realizado em novembro de 2000 em Santa Maria (RS), e publicado na Revista Expressa Extensão (Universidade Federal de Pelotas), v. 5, n.2, p. 69-80, dezembro 2000

Luciano de Almeida (Prof. M.Sc. - Departamento de Economia Rural e Extensão da UFPR)

Marcelo Ricardo de Lima (Prof. M.Sc. - Departamento de Solos e Engenharia Rural da UFPR)

Beatriz Monte Serrat Prevedello (Profa. Dra. - Departamento de Solos e Engenharia Rural da UFPR)

RESUMO: A capacitação de agricultores envolve processos de produção e troca de conhecimentos, situações de aprendizagem onde são importantes os conhecimentos que técnicos e agricultores tem da situação vivida por estes últimos. Essa capacitação pressupõe que se partilhe o reconhecimento de problemas e a busca de alternativas. O diagnóstico constitui-se numa ferramenta eficiente para atingir estes objetivos, especialmente se for desenvolvido sob um enfoque sistêmico da produção rural e com a participação dos agricultores. À partir destes pressupostos, o Projeto de Extensão Universitária Solo Planta, alocado no Departamento de Solos da Universidade Federal do Paraná, realizou três cursos de extensão universitária envolvendo profissionais da área agrária e agricultores. Os resultados dos cursos permitiram não somente constatar a eficiência do diagnóstico sob enfoque sistêmico na apreensão da dinâmica das unidades de produção estudadas, como também foi efetivo na capacitação dos profissionais, agricultores e estudantes envolvidos.

PALAVRAS CHAVE: diagnóstico, enfoque sistêmico, fertilidade do solo

Soil management and soil fertility diagnosis: a systemic approach for the rural production

ABSTRACT: Many actions are important for the qualification of an agricultural worker. These actions comprehend the knowledge of the productive process, the experience exchange between technicians and these agricultural workers and to learn a variety of situations of the rural life. This process aims the recognition of local problems and the search of alternatives for their solutions. The soil fertility diagnosis may be an efficient auxiliary tool to reach this objective. This is especially true if it is developed under a systemic view and with the evolvement of the agricultural workers. Based on this propose, the Soil Plant Project members, from the Soil Department of UFPR, offered three extension courses for professionals of related areas and agricultural workers. The results obtained with these courses allowed to verify the adequacy of the diagnosis methodology, to comprehend the studied place dynamics, as well as to verify the efficiency of the qualification of everyone involved.

KEY WORDS: diagnosis; systemic approach; soil fertility

 

INTRODUÇÃO

O sucesso das estratégias de geração e socialização de conhecimentos e técnicas agrícolas está condicionado ao reconhecimento de que existem diferentes tipos de agricultores com problemas, potencialidades e necessidades específicas (5). Por conseqüência, isto significa reconhecer que não existem padrões tecnológicos universais e adequados a diversidade de situações e demandas dos produtores rurais.

Os efeitos da mudança tecnológica na capacidade de reprodução dos agricultores precisam, por outro lado, ser relativizados. A tecnologia não é o único fator que contribui para o desenvolvimento das unidades produtivas e dos sistemas agrários. Ao contrário, diversas variáveis internas e externas às unidades produtivas condicionam a sua sustentabilidade econômica, social e ambiental (12).

Nesta orientação, as estratégias de assessoramento e proposição de alternativas técnicas e gerenciais aos agricultores devem ser elaboradas e desenvolvidas em função dos problemas concretos, do projeto do agricultor e das reais condições para sua implementação. Por isso, as orientações aos agricultores devem ser feitas a partir das conclusões de um diagnóstico e ter como pressuposto os elementos acima mencionados (7).

Estas premissas básicas vem sendo adotadas no planejamento e execução do Projeto de Extensão Universitária Solo Planta (8), desenvolvido no Departamento de Solos da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Dentre as atividades deste projeto, está a realização de cursos de extensão universitária sobre diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos. Este trabalho tem por objetivo apresentar a ferramenta do diagnóstico sob enfoque sistêmico, utilizado nestes cursos, bem como os resultados alcançados em termos de prática extensionista.

REFERENCIAL TEÓRICO

O trabalho de orientação para coleta de amostras e, sobretudo, de capacitação a partir da interpretação das análises de solos, exige que se considere alguns fatores que influenciam na possibilidade dos produtores rurais adotarem ou não as alternativas e inovações sugeridas.

A orientação difusionista da assistência técnica que uniformiza os produtores rurais para os quais se repassam tecnologias padrões e pré-definidas já se mostrou muito limitada e excludente, deixando sem opções tecnológicas e assessoramento adequado um grande conjunto de produtores rurais, sobretudo agricultores familiares cujos sistemas de produção são complexos (3). É preciso reconhecer as diversidades dos ecossistemas e dos modos de gestão, e considerar a constituição histórica de agricultores e agriculturas diferenciados econômica, social e culturalmente (12).

Nesta perspectiva, o processo de assessoramento, de geração e socialização de conhecimentos e técnicas pressupõe não só o reconhecimento da existência de diferentes tipos de agricultores, mas a realização de procedimentos que caracterizem as diferenças fundamentais que condicionam a adoção de inovações. Como afirma Silveira (12), são estas condições concretas em nível de unidade produtiva, que determinarão as opções tecnológicas. Estas condições envolvem fatores não só econômicos, mas aspectos ecológicos, culturais e político-institucionais que definem distintas estratégias de decisão e gestão nas unidades produtivas (12).

É preciso, assim, compreender a racionalidade da gestão da unidade produtiva, identificando suas características sócio-econômicas, sua história e estado atual, sua necessidades e projetos. Como afirma Silveira (12), essa racionalidade ou lógica de gestão e decisão "(...) é sempre uma opção entre alternativas conhecidas pelo gestor, segundo critérios que são condicionados pela percepção do agente em relação a sua situação".

Captar esta lógica de gestão é uma das principais funções do diagnóstico. Nesta perspectiva, o diagnóstico pode ser um instrumento que possibilita a identificação de restrições e oportunidades ao desenvolvimento dos sistemas de produção (10). Algumas questões centrais devem ser respondidas no diagnóstico da fertilidade e manejo do solo, dentre as quais destacam-se (1):

1) O produtor reconhece que tem problemas com o seu solo? E ainda: até que ponto este agricultor acredita que problemas com o seu solo podem estar causando perdas de produção, produtividade e renda? Estas perguntas são fundamentais, pois é preciso que o agricultor esteja certo da necessidade da análise de solo e planta, e das recomendações daí derivadas. Essa necessidade deve ser evidenciada e reforçada se preciso, pois, do contrário, tanto a análise quanto as sugestões técnicas podem não ser consideradas importantes e úteis pelo o agricultor. Se isso acontecer a possibilidade de adoção das recomendações é pequena;

2) Qual a prioridade que este produtor dá para os problemas de solo e para as recomendações que visem a correção ou manutenção da fertilidade do solo? Se outros problemas (técnicos ou não) forem considerados mais importantes pelo agricultor diante do esforço e custo que a análise e recomendações vão lhe exigir, seu interesse e aceitação diante das sugestões tende a ser reduzida.

Um método básico para responder a estas duas questões e identificar a importância e a prioridade para problemas e recomendações relacionadas com o solo é envolver ao máximo o produtor no trabalho de caracterização da propriedade. A participação do produtor tem por objetivo o engajamento deste na análise de sua realidade e na busca de alternativas apropriadas. Além disto, a participação deve proporcionar que o produtor não seja um mero informante, mas um co-autor do diagnóstico, reconhecendo-se assim o conhecimento local e transformando o diagnóstico num instrumento de capacitação (4).

O diagnóstico participativo deve assim, permitir que o produtor analise e discuta sobre o modo como o seu solo é manejado e sobre os problemas daí decorrentes. Isto vai permitir que ele perceba a necessidade (ou não) das análises e das futuras recomendações, o que tende a favorecer a adoção destas. É evidente que quanto mais discutido com o produtor for o diagnóstico e as recomendações, mais apropriadas ao sistema de produção serão as sugestões, e maior será o grau de adoção.

O reconhecimento da realidade, por outro lado, não deve, e nem pode, se constituir num levantamento exaustivo e demorado de "toda" a situação vivida pelos agricultores. Esta pretensão é equivocada ao pressupor que seja possível conhecer a totalidade dos fenômenos que condicionam a lógica de gestão e as opções relacionadas com o manejo dos solos, e que, só a partir desse conhecimento, seja possível produzir e trocar novos conhecimentos. Por sua vez, o planejamento formal, com seus diagnósticos estanques e detalhados, tem se revelado limitado para situações onde se deseja priorizar a produção de informações num tempo curto, através de dinâmicas participativas.

Neste projeto, admite-se, como Chambers (4), que uma grande quantidade de informações obtidas não garante a utilidade destas, nem a qualidade do resultado do diagnóstico. Ao contrário, primou-se aqui pela informalidade e flexibilidade na realização do diagnóstico, por considerar tais princípios coerentes com a concepção de capacitação e com as estruturas e estratégias de formação disponíveis pelo projeto.

O enfoque sistêmico é aquele mais apropriado para captar e compreender a racionalidade e as lógicas de gestão de uma unidade de produção através da análise do seu funcionamento (7).

Considerando-se que o produtor acredite que a análise de solos é importante diante de problemas prioritários já reconhecidos, deve-se proceder o conhecimento do sistema de produção naquilo que influencia a fertilidade, o manejo do solo e a possibilidade de adoção das recomendações.

Este levantamento de informações deve partir de uma abordagem ampla e sistêmica do funcionamento da propriedade. É preciso que os problemas e alternativas relacionados a fertilidade do solo sejam identificados e analisados em suas interações e interferências com outras áreas e atividades do estabelecimento. O princípio básico é que as decisões do produtor quanto ao manejo do solo estão condicionadas à lógica de gestão de toda a propriedade. Portanto, é preciso entender como funciona o sistema produção e descobrir as causas que orientam as escolhas e decisões do produtor.

Na abordagem sistêmica, os estabelecimentos agrícolas são vistos como um todo organizado, um sistema aberto e complexo. O sistema de produção, segundo Dufumier (5), pode ser entendido como um arranjo de atividades agrícolas e não-agrícolas, gerenciadas em função do ambiente sócio-econômico e agroecológico e de acordo com os objetivos, preferências e recursos da família.

Uma das propriedades mais importantes dos sistemas é que cada um deles ocupa um nível determinado em uma organização hierárquica e, portanto, pode constituir parte de um sistema maior, e por sua vez subordinar subsistemas hierarquicamente inferiores. Esta hierarquização de um sistema maior em subsistemas é imprescindível para que a investigação não caia na generalização ou no reducionismo (11). Esta hierarquia inclui o nível regional (sistema agrário), o nível intermediário da unidade de produção (sistema de produção), e o nível dos sistemas de cultivo, de produção animal, de extrativismo, e de processamento. O sistema de produção, assim, pode ser dividido em subsistemas:

  • Sistemas de cultivo, definidos ao nível das parcelas ou de grupos de parcelas de terras tratadas de maneira homogênea, com os mesmos itinerários técnicos e sucessões culturais. Os sistemas de cultivo abrangem atividades de lavoura, florestas e pastagens;
  • Sistemas de criação, definidos ao nível dos grupos de animais;
  • Sistemas extrativistas, definidos ao nível parcelas de áreas onde a retirada de recursos naturais ou de produtos predomina;
  • Sistemas de processamento dos produtos agropecuários no estabelecimento.

Analisar um sistema de produção na escala dos estabelecimentos rurais não se resume somente em estudar seus elementos constitutivos, mas consiste sobretudo em examinar com cuidado as interações e as interferências que se estabelecem entre eles (5):

  • Relações de concorrência entre as espécies vegetais e animais pelos recursos naturais disponíveis (água, luz, minerais, matérias orgânicas, etc.);
  • Relações de sinergia ou de complementaridade na utilização dos recursos;
  • Distribuição e repartição (no tempo e no espaço) da força de trabalho e dos meios de produção entre diferentes sub-sistemas de cultura e de criação: itinerários técnicos, sucessões e rotações de cultura, distribuição da área disponível entre as culturas, calendários forrageiros, deslocamentos de rebanhos.

METODOLOGIA

A metodologia apresentada nos cursos de extensão universitária, promovidos pelo Projeto de Extensão Universitária Solo Planta (8), enfatizou a importância da realização de um diagnóstico das unidades produtivas, o qual antecede e orienta a busca de alternativas tecnológicas. Especificamente, no diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos, a caracterização do sistema de produção foi uma importante ferramenta facilitadora do trabalho de assessoramento ao produtor rural.

O diagnóstico foi realizado através de diferentes técnicas, que foram aplicadas pelos participantes dos cursos: elaboração de croquis (mapas), elaboração de toposseqüências, realização de uma entrevista semi-estruturada, e coleta de amostras de solo. Destaque-se que, antes da realização do diagnóstico, nos cursos de extensão foram realizadas reuniões com as organizações e agricultores envolvidos, e visitas preparatórias às unidades de produção, com o intuito de planejar as atividades, iniciar o processo de conhecimento da realidade, e motivar dos agricultores.

Na elaboração do croqui procurou-se, junto com o produtor rural, localizar e desenhar os limites, os diferentes usos, sentido do declive, estradas, benfeitorias, etc. Esta atividade foi fundamental para que agricultor e técnicos iniciassem um processo de aproximação no uso da linguagem e na visualização do espaço sobre o qual trabalhariam. Esta atividade também permitiu que o agricultor reconstruísse e revelasse ao grupo o modo como compreendia espacialmente sua unidade de produção. O croqui foi assim, o primeiro resultado coletivo do diagnóstico e serviu como referência visual para as discussões que se seguiram sobre o uso e manejo desse espaço.

O objetivo das toposseqüências foi ilustrar características agroecológicas e de ocupação do solo segundo a posição na paisagem (10). Para fazer a toposseqüência procurou-se caminhar fazendo percursos através de áreas com diferenças de declividade, uso, solo, etc.

A entrevista semi-estruturada constituiu-se na atividade balisadora do diagnóstico. Ela se iniciou no momento da chegada a propriedade, desenvolveu-se em momentos diversos, paralelamente a outros levantamentos. Desta forma, não houve uma preocupação com uma seqüência muito rígida e as informações eram obtidas durante um diálogo mais flexível. Durante a elaboração dos croquis, da toposseqüência e de discussões paralelas, diversas informações importantes foram obtidas. Coube aos participantes do curso ficarem permanentemente atentos para registrar as informações pertinentes e questionar quando necessário. A entrevista envolveu questões sobre: identificação e caracterização da propriedade; calendário das atividades rurais; descrição dos sistemas de cultivo; problematização da área; manejo do solo e culturas; informações sobre adubação, calagem e sintomas visuais nas plantas; dados gerais do solo; gestão do estabelecimento e projetos futuros.

Após a coleta das informações e amostras de solo, houve a análise laboratorial (química e física), a interpretação dos resultados, discussões entre docentes, técnicos e alunos sobre alternativas, e a elaboração de um relatório parcial onde constavam as sugestões ao produtor rural.

Numa etapa seguinte realizou-se uma reunião com os agricultores envolvidos na qual foram amplamente debatidas as sugestões elaboradas pelo grupo. Este momento não se constituiu num simples repasse de técnicas acabadas. Ao contrário, foi caracterizado com um momento de troca e produção de conhecimento, onde as sugestões eram reavaliadas sob a ótica do agricultor. Neste processo, novas informações foram incorporadas ao diagnóstico, analisaram-se as incompatibilidades entre as alternativas tecnológicas elaboradas e as características da unidade de produção, surgiram novos enfoques dos anseios do agricultor, e foram colocados novos desafios, diante de problemas não resolvidos. Após uma análise mais demorada do relatório pelos agricultores procederam-se novos contatos entre os participantes do projeto e os agricultores, de modo a dar continuidade ao diagnóstico e a busca de alternativas.

Este breve relato de atividades procura demonstrar que o projeto concebe a capacitação dos agricultores como um processo que não se acaba com curtas intervenções ou visitas. Professores, bolsistas do projeto, e participantes dos cursos de extensão se sucedem no assessoramento aos agricultores, procurando criar um vínculo mais duradouro entre produtores rurais, suas organizações e a universidade.

A parte final do trabalho envolveu a avaliação dos agricultores em relação ao produto final obtido, e a avaliação dos participantes do curso em relação ao mesmo. O detalhamento da metodologia adotada pode ser encontrado em Lima et al. (9).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram realizados três cursos de "Diagnóstico da Fertilidade e Manejo dos Solos", os quais reuniram profissionais e estudantes de Agronomia e Engenharia Florestal. No primeiro curso de extensão (abril de 1999) foram estudadas duas propriedades rurais que apresentavam sistemas de produção e realidades distintas, baseadas na produção convencional de olerícolas. No segundo curso (outubro de 1999) foi estudada uma unidade de produção rural cujo sistema produtivo possuía integração entre a produção vegetal (grãos e olerícolas) e animal (suínos), com base em princípios orgânicos. A propriedade analisada no terceiro curso (setembro de 2000) caracterizava-se como um sistema de produção bastante diversificado e complexo.

Evidentemente que, pelo modo como foram desenvolvidas as atividades, os participantes do curso e os agricultores foram os maiores beneficiários deste trabalho. Contudo, é preciso ressaltar a oportunidade de aprendizagem que essas atividades proporcionam aos docentes e pesquisadores. Dois aspectos se destacam nessa aprendizagem. O primeiro diz respeito a experiência metodológica de produção e socialização de conhecimentos no âmbito de um processo que busca a interdisciplinariedade. A existência de um mesmo fenômeno (uma unidade de produção) analisado de modo coletivo em momentos de reconhecimento, análise e diálogo, permitiu um exercício e um aprendizado metodológico. A compreensão de um fenômeno complexo, tal como uma unidade de produção, exige e se revela melhor quando os indivíduos vão além de seus campos disciplinares, quando se permitem, na troca e no respeito, considerar os conhecimentos que parecem estar fora de seu universo disciplinar.

O segundo aspecto refere-se ao exercício da produção e troca de conhecimentos com agricultores, onde os resultados tem implicação concreta e, por vezes, imediata. A capacitação de agricultores e o estabelecimento de compromissos diante de expectativas não acadêmicas, certamente implica em novas posturas e em capacidades de trocar e educar, por vezes, distintas daquelas predominantes nas práticas cotidianas das aulas.

Por fim, mas não conclusivo, há o aprendizado de saberes que surgem dos agricultores e dos participantes dos cursos, cujas histórias e experiências, revelam significados inovadores. Se aprenderem, como docentes, a aprender na troca com aqueles que estão fora da academia, é possível que sejam melhores professores.

A unidade de produção que serviu de base empírica para o terceiro curso foi escolhida em colaboração com a Associação d’Agricultura Orgânica do Paraná (AOPA) e fazia parte de um grupo de agricultores que também foram envolvidos no curso. Este procedimento caracterizou uma ampliação do projeto e dos cursos de extensão para agricultores organizados, onde as estruturas e relações coletivas tivessem importância nos modos como estes produtores rurais procuram resolver seus problemas.

A parceria com uma organização e a inclusão de momentos de discussão e capacitação grupal teve por objetivo expandir a capacitação a um grupo maior de agricultores. Pretendeu-se, também, que os serviços e a capacitação oferecidos pelo projeto e pelos cursos fossem coerentes com demandas identificadas a partir dos próprios agricultores. Por sua vez, o envolvimento dos produtores rurais, em práticas de grupo e organizativas revelaram estratégias de reprodução cujo entendimento, pelo diagnóstico, foram importantes na identificação de potencialidades e alternativas.

Destaca-se ainda que, segundo Lima et al. (7), "a organização do trabalho por grupos de vizinhança, além de atingir um número maior de agricultores e poupar recursos, possibilita que os agricultores façam comparações entre as unidades de produção, percebam as diferenças e semelhanças e relacionem as diferentes variáveis que interferem no resultado da produção".

Conforme anteriormente esclarecido na metodologia, a característica fundamental desenvolvida nestes cursos foi um trabalho em equipe, baseado em estudos de caso, que buscou uma prática interdisciplinar, e que envolveu professores, produtores rurais, participantes do curso, bolsistas e estagiários do projeto. Coerente com estas características, utilizou-se o enfoque sistêmico em um estudo integrado de fertilidade e manejo do solo. Deve-se observar que "a unidade de produção agropecuária é um sistema aberto que mantém relações com o meio ambiente físico, socio-econômico e cultural" (7). Portanto, a incorporação da abordagem sistêmica aos cursos foi importante pois o profissional de ciências agrárias deve possuir uma visão de todo o sistema, e atuar de modo coerente com a dinâmica dessa totalidade, e não se orientar apenas para resolução de partes, supostamente isoladas.

Os cursos geraram vários resultados como: produção de conhecimento sistematizado em um manual (9); produção de diagnósticos do sistema de produção com enfoque no manejo e fertilidade do solo, e aconselhamento técnico aos produtores que gerenciam as propriedades rurais estudadas nos cursos (13;14); treinamento de 15 bolsistas e estagiários envolvidos no projeto de extensão; atualização de 70 profissionais e estudantes que atuam ou virão a atuar na extensão rural; participação de 08 docentes do Setor de Ciências Agrárias da UFPR que puderam exercitar a atividade extensionista em um processo que buscava a interdisciplinaridade.

Através dos cursos, os participantes, bolsistas e estagiários, foram sensibilizados da necessidade do diagnóstico sob enfoque sistêmico para poderem apreender a realidade do produtor e da produção rural, e poderem exercer um assessoramento compatível. A realização do diagnóstico permitiu que os participantes do curso elaborassem recomendações técnicas mais adequadas do que aquelas que seriam obtidas pela mera interpretação das análises laboratoriais do solo, pois consideraram limitações e potencialidades de cada unidade de produção agropecuária.

Os participantes dos cursos puderam observar que o "trabalho do profissional como educador não se esgota e não deve se esgotar no domínio da técnica, pois que esta não existe sem os homens e estes não existem fora da história, fora da realidade que devem transformar" (6).

O diagnóstico foi uma importante ferramenta, pois o extensionista deve ter espírito de pesquisador, a fim de conhecer a fundo o meio em que irá atuar, evitando uma ação de mero depósito de conhecimento dos técnicos junto à população rural (2).

As avaliações (escritas e anônimas), realizadas pelos participantes do primeiro curso, mostraram que os mesmos valorizaram a instrumentação fornecida. Esta avaliação mostrou graus elevados de satisfação plena dos participantes segundo os critérios adotados: carga horária adequada (58%), materiais didáticos adequados (88%), metodologia adequada (88%), trabalho em grupo (76%), ministrantes adequados (94%), tópicos do curso adequados (58%), contribuição para formação profissional (88%), satisfação das expectativas em relação ao curso (70%). As demais respostas referem-se ao atendimento parcial ou não atendimento da expectativas dos participantes. No segundo e terceiro cursos houve preocupação em sanar os aspectos relacionados como limitantes no primeiro curso.

A avaliação realizada no terceiro curso mostrou que aumentou a satisfação plena dos itens carga horária (65%), materiais didáticos (100%), tópicos adequados (61%), contribuição para a formação profissional (91%). No entanto, ainda há a necessidade de melhor se adequar os aspectos de metodologia de estudos de casos, atividade em grupo, ministrantes, e atendimento das expectativas do curso, pois ficaram um pouco abaixo da avaliação anterior, sendo que a satisfação ficou revelada em 82%, 70%, 83%, e 68%, respectivamente.

CONCLUSÕES

A ferramenta de diagnóstico da fertilidade e manejo do solo sob enfoque sistêmico permitiu uma melhor compreensão da realidade rural, possibilitando a maior eficiência do processo de capacitação técnica, aspecto favorável tanto aos produtores rurais quanto aos profissionais que participaram dos cursos de extensão universitária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. ALMEIDA, L. de; LIMA, M.R. de. Metodologia de caracterização do sistema de produção com ênfase na fertilidade e manejo dos solos. In: LIMA, M.R. de; SIRTOLI, A.E.; PREVEDELLO, B.M.S.; ALMEIDA, L. de; MACHADO, M.A. de M.; MARQUES, R. Manual de diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, Departamento de Solos, Projeto Solo Planta, 2000.
  2. ARAÚJO, M.M. Extensão rural – educação – cultura. Expressa Extensão, Pelotas, v. 4, n. 1, p. 7-12, 1999.
  3. CAPORAL, F. R.; COSTA BEBER, J. A. Por uma nova extensão rural: fugindo da obsolescência. Reforma Agrária, v. 24, n. 3, p. 70-90, set./dez. 1994.
  4. CHAMBERS, R. DRP: despeués de cinco años, en qué estamos ahora? Revista Bosques, Árboles y Comunidades Rurales, n. 26.p. 4-15, 1995.
  5. DUFUMIER, M. Les projets de développement agrícole. Paris: Éditions Karthala–CTA, 1996.
  6. FREIRE, P. Educação ou comunicação? 10 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
  7. LIMA, A .P.; BASSO, N.; NEUMANN, P.S.; SANTOS, A.C.; MÜLLER, A.G. Administração da unidade de produção familiar: modalidades de trabalho com agricultores. Ijuí: UNIJUI, 1995.
  8. LIMA, M.R. de; PREVEDELLO, B.M.S.; ALMEIDA, L. de. Projeto solo planta: sistema de análise de solo e planta – ferramenta tecnológica ao alcance do produtor rural. Em Extensão, Uberlândia, v. 2, n. 2, 2000. (no prelo).
  9. LIMA, M.R. de; SIRTOLI, A.E.; PREVEDELLO, B.M.S.; WISNIEWSKI, C.; ALMEIDA, L. de; MACHADO, M.A. de M.; MARQUES, R. Manual de diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, Departamento de Solos, Projeto Solo Planta, 2000.
  10. RIBEIRO, M.F.S.; LUGÃO, S.M.B.; MIRANDA, M.; MERTEN, G.H. Métodos e técnicas de diagnóstico de sistemas de produção. In: IAPAR. Enfoque sistêmico em P & D: A experiência metodológica do IAPAR. Londrina: IAPAR, 1997. p. 55-79. (IAPAR. Circular, 97).
  11. SARAIVA, A. Un enfoque de sistemas para el desarollo agricola. San José: IICA, 1983. 265 p.
  12. SILVEIRA, P. R. Sustentabilidade e transição agroambiental: desafio aos enfoques convencionais da administração e extensão. Extensão Rural, Santa Maria, v. 1, n. 1, p. 80-107, jan/dez. 1993.
  13. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ. Departamento de Solos. Projeto Solo Planta. Diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos da Fazenda Pedra Branca – Bocaiúva do Sul. Curitiba, 1999. 29 f.
  14. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ. Departamento de Solos. Projeto Solo Planta. Diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos do Sítio Recanto Nativo (Campo Magro – PR). Curitiba, 2000.

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