.: Diagnóstico
e proposições para a fertilidade e manejo dos
solos em uma comunidade rural situada na APA de Guaraqueçaba
(PR)
(Trabalho apresentado no XX Seminário
de Extensão Universitária da Região Sul
(SEURS) realizado em agosto de 2002 em Pelotas (RS), e publicado
na Revista Expressa Extensão (Universidade Federal
de Pelotas), v. 7, n.especial, agosto 2002.
Thaís Gisele de Moraes Martins*, Luiz
Pimenta Drumond Bessa*, Marcelo Ricardo de Lima**, Beatriz
Monte Serrat Prevedello***, Angelo Evaristo Sirtoli**, Celina
Wisniewski***, Karina Idamara Krieger*, Alessandro Watanabe*
(*Acadêmica(o) do curso de agronomia
da UFPR; **Prof. do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola
da UFPR, Doutorando em Agronomia (PGAPV_UFPR), Rua dos Funcionários,1540,
Curitiba (PR), www.agrarias.ufpr.br/~soloplan; ***Profa. Dra.
do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola da UFPR;
4Prof. M.Sc. do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola
da UFPR)
INTRODUÇÃO
A Área de Proteção Ambiental
(APA) Federal de Guaraqueçaba, com 283.014 ha, localizada
no litoral paranaense, foi criada em 1985 e tem por finalidade
(3): preservar uma das áreas da Floresta Pluvial Atlântica;
o complexo estuarino da Baía de Paranaguá; os
sítios arqueológicos; as comunidades caiçaras
integradas no ecossistema; controlar o uso de agrotóxicos;
estabelecer critérios racionais de uso e ocupação
do solo na região; e proteger a Estação
Ecológica de Guaraqueçaba. Se, por um lado,
houve diminuição do desmatamento e a restrição
no uso de agrotóxicos, por outro lado, também
contribuiu para o empobrecimento das populações
locais, uma vez que não considerou a maneira com que
exploram a natureza, baseadas no sistema de cultura de queimadas,
e na extração dos recursos florestais e do mangue
(7).
Os agricultores foram obrigados a adotar
o cultivo orgânico na banana e no palmito, que são
os geradores dos recursos financeiros. Devido ao difícil
acesso, à falta de recursos e a nova forma de manejo,
surgiram problemas para a manutenção da produtividade,
incluindo a falta de matérias primas para a realização
de uma adubação eficiente que permitisse um
equilíbrio de nutrientes no sistema.
Este trabalho teve como objetivo geral apresentar
os resultados parciais alcançados e as dificuldades
encontradas na busca de alternativas para o aumento da produção
dos bananais da comunidade de Batuva, município de
Guaraqueçaba (PR). E como objetivo específico
realizar um diagnóstico da fertilidade e manejo dos
solos destas áreas, bem como discutir com um grupo
de agricultores desta comunidade a viabilidade de ações
baseadas nos pontos identificados.
METODOLOGIA
O trabalho foi desenvolvido junto a um grupo
de 07 produtores rurais da Associação de Pequenos
Produtores Rurais de Batuva (município de Guaraqueçaba
- PR), a qual tem uma parceria com o Projeto de Extensão
Universitária "Desenvolvimento Sustentável
em Guaraqueçaba" (PROEC/UFPR). Como a bananicultura
é a principal matéria prima para a Unidade de
Transformação de Produtos Agrícolas da
associação, e tendo em vista a preocupação
com relação à redução do
rendimento destas lavouras, incorporou-se a este trabalho
o Projeto de Extensão Universitária "Solo
Planta" (5).
Foi realizado um diagnóstico da fertilidade
e manejo dos solos (2) destas propriedades rurais. Esta atividade
foi desenvolvida através de uma entrevista semi-estruturada
(1), conduzida por professores e graduandos, levantando condições
das lavouras e da propriedade como um todo. Optou-se por um
enfoque sistêmico de análise da unidade de produção
rural, pois é aquele mais apropriado para captar e
compreender a racionalidade e as lógicas de gestão
da mesma através de seu funcionamento (4). Também
foram coletadas amostras de solos, para análise química
e granulométrica.
A partir destes dados, foram elaborados laudos
individualizados de sugestões de adubação
e calagem, com orientações sobre o manejo do
bananal, considerando a necessidade de certificação
orgânica.
Os laudos foram entregues e discutidos com
cada produtor, procurando esclarecer as dúvidas e levantar
sugestões dos mesmos para a melhoria e adequação
das suas recomendações. Após as modificações
solicitadas pelos produtores, foi realizado um novo retorno
à comunidade para a entrega dos laudos, bem como a
realização de um seminário participativo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Havia uma justificada expectativa na obtenção
de resultados concretos, tendo em vista que a comunidade de
Batuva, é considerada privilegiada pois (7): a) localiza-se
em um vale largo, com solos drenados e, portanto, propícios
ao cultivo de banana, em particular; b) os agricultores que
aí residem possuem terras agrícolas suficientes
para a realização do projeto; c) os agricultores
estão organizados em uma associação,
que possui experiência à respeito da transformação
e comercialização da banana.
O diagnóstico rápido permitiu
identificar os problemas e as necessidades mais imediatas,
pois por mais conhecedor da agricultura que o profissional
da assistência rural seja, é absolutamente impossível
formular e propor alternativas para problemas concretos e
diversos sem conhecê-los (4). De modo geral, o diagnóstico
realizado evidenciou que os solos da maior parte dos bananais
avaliados apresentam problemas de acidez e baixa disponibilidade
de nutrientes.
Visando uma maior produtividade, foi sugerido
aos produtores procurar repor as quantidades de nutrientes
extraídas pela planta. Calagem e adubação
deveriam ser realizadas sempre que necessárias, pois
uma planta bem nutrida, com os elementos indispensáveis,
pode apresentar maior resistência a um ataque severo
de doenças comuns da bananeira na região, como
o mal de Sigatoka e o mal do Panamá. Alguns bananais
avaliados vem apresentando um contínuo e visível
decréscimo na produção e na sanidade,
aspecto identificado pelos próprios produtores da comunidade.
Tendo em vista a realidade em que se encontra
a comunidade, seus recursos e também as possibilidades
de apoio da comunidade universitária, foram levadas
algumas alternativas de solução, que a médio
prazo poderiam restabelecer o equilíbrio de ciclagem
de nutrientes do sistema. Os laudos de sugestão técnica
foram questionados pelos produtores, e geraram alterações.
Durante a execução dos trabalhos,
muitas vezes, os agricultores adotavam uma postura de resistência
em relação ao que estava sendo proposto. É
importante ressaltar que em todas as visitas técnicas
realizadas nas propriedades, foram deixados espaços
para que os produtores dessem suas opiniões sobre a
condução dos trabalhos, críticas e sugestões.
Isto levou a uma mudança na condução
do trabalho extensionista, visando um melhor aproveitamento.
Diante das dificuldades, foram estudadas possíveis
formas de aumentar a participação da comunidade,
já que as recomendações estavam prontas,
mas não aplicadas.
Uma alternativa encontrada foi a realização
do seminário participativo, com os produtores rurais
envolvidos, destacando-se a prática dos tratos culturais,
que não necessitaria de investimento em dinheiro, mas
mão-de-obra e conhecimentos. Os produtores participaram
ativamente com idéias, na tentativa de resgatar a motivação
em investir não só através de correções
e fertilizações, mas principalmente na estrutura
e sanidade dos bananais. A condução do trabalho
ocorreu de forma que os mesmos expusessem as práticas
que já vem sendo executadas nas áreas e, após,
foi relacionado com as indicadas pelas literaturas e até
mesmo com as que vem mostrando resultados positivos em outras
regiões produtoras de banana.
Ficou claro no desenvolver das diversas atividades
na comunidade que, a maioria das práticas de manejo
apresentadas como as mais adequadas já eram do conhecimento
dos agricultores e, segundo os mesmos, executadas em seus
bananais. Porém, o que foi constatado em todas as visitas
técnicas realizadas durante o período, é
que essas práticas são realizadas com pouca
freqüência.
O estágio tecnológico adotado,
porém, não deve ser identificado apenas como
resultante da irracionalidade econômica ou de tradicionalismo.
Ele é induzido, pelos preços relativos de fatores
de produção e alternativas técnicas disponíveis
(6). No caso particular dos produtores familiares o processo
é, inclusive, mais complexo, pois segundo Lima et al.
(4), o grande projeto dos produtores familiares é reproduzir,
ao mesmo tempo, a família e a unidade de produção.
Para concretizar seu projeto, os produtores adotam uma estratégia
que consiste em diversificar a produção de acordo
com a disponibilidade dos recursos, de modo a garantir o autoconsumo,
diminuir o risco e aumentar a renda total da família,
mesmo que isto não signifique a melhor remuneração
do capital investido e a maximização de lucros
(4).
Então, é necessário
que se identifique o porquê da não utilização
das técnicas adequadas na condução dos
bananais e os fatores que influenciam nas atitudes dos proprietários
rurais. A resposta a esta questão não é
simples, pois as decisões do produtor quanto ao manejo
do solo estão condicionadas à lógica
de gestão de toda a propriedade. Portanto é
preciso entender como funciona o sistema de produção
e descobrir as causas que orientam as escolhas e decisões
do produtor (2). Os fatores que poderiam explicar esse desinteresse
em investir capital e trabalho nos bananais são a penosidade
do trabalho, a sazonalidade de mão-de-obra, o êxodo
dos filhos do agricultor, ou a necessidade de investir simultaneamente
em outras lavouras.
Há de se ressaltar o esforço
dos produtores para não adotar práticas da agricultura
convencional que facilitariam o cultivo, mas que são
prejudiciais ao ambiente natural da APA. Portanto, ao propor
a preservação do ecossistema da região,
faz-se necessária a lembrança que, neste mesmo
espaço geográfico, sobrevivem várias
famílias, que são as primeiras a preservá-lo.
CONCLUSÕES
As atividades de extensão propostas
foram desenvolvidas conforme o planejamento realizado, com
as alterações que o processo exigiu. A partir
dos dados levantados e das discussões realizadas com
a comunidade local, foi possível concluir que: a) os
solos da maior parte dos bananais apresentam problemas de
fertilidade, como acidez elevada e baixa disponibilidade de
nutrientes; b) os produtores utilizam com baixa eficiência
os seus conhecimentos do manejo adequado do bananal, relativos
à condução da planta e às suas
condições sanitárias; c) tão importante
quanto a sua formação técnica, é
a promoção da conscientização
do produtor rural do potencial comunitário para a resolução
dos diversos problemas identificados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
-
ALMEIDA, L.; LIMA, M.R. Metodologia
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com ênfase na fertilidade e manejo dos solos. In:
LIMA, M.R. (Org.) Manual de diagnóstico
da fertilidade e manejo dos solos. Curitiba:
UFPR, Departamento de Solos, Projeto Solo Planta, 2000.
-
ALMEIDA, L.; LIMA, M.R.; PREVEDELLO,
B.M.S. Diagnóstico da fertilidade e manejo dos
solos sob enfoque sistêmico da produção
rural. Expressa Extensão, Pelotas,
v. 5, n. 2, p. 69-80, 2000.
-
BRASIL. Decreto nº 90.883, de
31 de janeiro de 1985. Dispõe sobre a implantação
da Área de Proteção Ambiental de
Guaraqueçaba, no Estado do Paraná, e dá
outras providências.
-
LIMA, A.P.; BASSO, N.; NEUMANN, P.S.;
SANTOS, A.C.; MÜLLER, A.G. Administração
da unidade de produção familiar:
modalidades de trabalho com agricultores. Ijuí:
UNIJUÍ, 1995.
-
PREVEDELLO, B.M.S.; LIMA, M.R.; ALMEIDA,
L. Projeto solo planta: sistema de análise de solo
e planta - ferramenta tecnológica ao alcance do
produtor rural. Em Extensão, Uberlândia,
v. 2, n. 2, p. 45-52, 2000.
-
SOUZA, R., GUIMARÃES, J.M.P.,
MORAIS, V.A., VIEIRA, G., ANDRADE, J.G. A administração
da fazenda. Rio de Janeiro: Globo, 1989. 211
p.
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ZANONI, M.M., WALFLOR, M.F.G.M. O projeto
"desenvolvimento sustentável em Guaraqueçaba":
origem, propostas e organização. In: Desenvolvimento
sustentável em Guaraqueçaba. Curitiba:
UFPR/PROEC, 1999.p. 9-18.
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